Friday, February 02, 2007

Escrevo-te porque não há mais nada que me apeteça fazer.
Esta noite tudo pode esperar... Os livros de exercícios espalhados pela cama, a calculadora que espera por fórmulas novas na memória e até os marcadores abertos a secar ao ar...
Quero pedir desculpa pela minha ausência nestes dias, mas na última vez que estivemos juntos acho que te disse que ía ter um mês complicado. Assumo, também não me tenho lembrado de te dizer nada, mas hoje, hoje apeteceu-me escrever-te.
No outro dia o meu pai disse que foste jantar lá a casa. Ouvi dizer que me compraste aquele livro que queria e que o deixaste em cima da minha cama. Agradeço-te quando aí chegar. Mas já te tinha dito que não queria que o comprasses.
Sabes, esta noite fui invadida pela nostalgia. Fiquei assim quando soube que a Carolina tinha nascido. É uma benção, eu sei, mas sinto-me, e de forma egoísta, triste.Talvez por ser a única da família que não a pôde ver hoje, a única que está realmente longe de todos. Por vezes tenho estas crises de arrependimento por ter vindo para cá...
Pouco me disseram sobre ela além de ser bonita como a mãe...
Não sei se te lembras, mas Carolina era o nome da nossa tartatuga... Agora acho estranho termos uma prima com nome de tartaruga. Não achas?
O Tomás está quase a nascer, com certeza vai ter aqueles lindos olhos verdes como o teu irmão... É mais um para incutirmos o espírito benfiquista desde miúdo.
Ainda te lembras quando demos à Laura o cartão de sócio do Benfica do João com 2 meses? Nem lhe demos oportunidade de escolha.

Há pouco perdi-me no tempo, voltei insconscientemente 18 anos atrás, a minha memória também não me permite ir além disto.
Tive saudades das nossas férias sempre juntos. Das corridas de bicicleta pela descida do moinho que tantas vezes só parávamos com os joelhos naquela brita que parecia queimar... De ir às tuas cavalitas apanhar nêsperas na horta dos avós, dos piqueniques junto à barragem, das birras para comermos fatias douradas ao pequeno-almoço, de se exagerar da canela nas pipocas - eu que nunca gostei de canela - e passarmos o resto da tarde mal dispostos... Das grandes discussões com a Gisela para conseguirmos a tua atenção, de me sentar no carrinho de mão enquanto empurravas até à estrada nova, de te ver a cair da árvore e só parar de rir quando percebi que ías embora de ambulância... De comermos torradas feitas às escondidas no aquecedor, dos concursos de sugus, de desmanchar os teus puzzles de 1000 peças quando terminavas primeiro que eu, de dançar contigo nos bailes da terra e trocares de par com o Tiago só para me envergonhares... De aprendermos as músicas alentejanas com o teu pai, de dormir na cama ao lado da tua e acordar-te com gritos... Saudades de andar no baloiço que o tio Zé nos fez, dos banhos nocturnos na piscina da avó, de cairmos para as silvas sempre que íamos apanhar amoras, de todas as nossas férias de Verão na Costa Alentejana...
Hoje agradeço-te por todos os momentos que ainda conseguimos passar juntos.
Acho que fiquei pior quando a tua irmã me ligou ao início da noite e ouvi a "Raqui" do outro lado a chamar por mim. Só me apetecia abraçá-la.
Sei que já tive mais tempo sem ir aí abaixo, mas esta semana também não foi fácil. Como sabes, eu nunca gostei de passar muito tempo sozinha e este último mês, foram raros os dias que estive acompanhada cá em casa...

Ainda não te falei dele, e também não vou falar quando aí for. Eu não sei se ele chegou a entrar na minha vida, e também prefiro já nem pensar nisso... Mas durante aqueles dias, ele foi o confidente, um desconhecido que me voltou a arrancar sorrisos, trouxe com ele o encanto, a magia das minhas noites...
Tu sabes que eu sempre gostei de sonhar acordada... E esta noite dei por mim a rascunhar o seu nome nas minhas folhas soltas, pousei o lápis, voltei-me na cama a procurar uma das almofadas, e com aquele sorriso estúpido - que tão bem conheces, pensei: "Será que gosta de Filipa? Pedro ou Mariana? Se fizesse muita questão eu deixaria que ele escolhesse outro nome..." .
Ele foi mais importante do que a importância que lhe dou. É certo. Mas é assim que tem de ser.
Quase te consigo ouvir a chamar-me de doida enquanto me lês e tu quase me vês a rir enquanto te escrevo... Porque será? Conhecemo-nos tão bem.

Está a amanhecer, suponho que estejas a acordar e eu preciso de dormir...
Beijinho para ti e para a Cristina;

Até 4ª.

Rita
PS: Lembrei agora... Deves ter a "Filipa" primeiro que eu... É o teu nome preferido.

7 comments:

Anonymous said...

Nostalgia familiar, saudades de momentos de outrora é coisas que nos afectam por vezes, nesta fase em que as responsabilidades acrescem e que parece que estamos longe de tudo e todos, por uma melhor vida, por um futuro melhor, contudo estamos sempre a questionar-nos até que ponto vale a pena os nossos esforços, esta ausência forçada que nos parece atirar para fora daqueles que sempre nos acariciaram, acolheram e sempre tiveram lá, eu próprio me pergunto até que ponto vale partir e deixar tudo para trás...contudo, tudo vale a pena quando a alma não é pequena e a tua é bem grande tal como a tua pessoa, força e sorte para a tua vida!:)

Anonymous said...

Nostalgia familiar, saudades de momentos de outrora é coisas que nos afectam por vezes, nesta fase em que as responsabilidades acrescem e que parece que estamos longe de tudo e todos, por uma melhor vida, por um futuro melhor, contudo estamos sempre a questionar-nos até que ponto vale a pena os nossos esforços, esta ausência forçada que nos parece atirar para fora daqueles que sempre nos acariciaram, acolheram e sempre tiveram lá, eu próprio me pergunto até que ponto vale partir e deixar tudo para trás...contudo, tudo vale a pena quando a alma não é pequena e a tua é bem grande tal como a tua pessoa, força e sorte para a tua vida!:)

Mauro

Rita said...

Logo tu que sofres diariamente pelos milhares de kms que te separam de quem mais gostas. Quase me sinto envergonhada por ter saudades de de pessoas que moram a pouco mais de 400 kms de mim.
São pensamentos egoístas, mas são os nossos...

Beijinho e obrigada pelas palavras * : )

Anonymous said...

É a segunda vez que leio este post hoje... Da primeira não tive tempo de deixar um comentário e agora da segunda, mesmo ainda me lembrando bem do que ele dizia, não resisti a lê-lo novamente. Gosto mesmo das tuas palavras (=

A distância é algo que suporto muito mal, confesso. E inerente a ela está sempre a saudade, a leve (que por vezes se intesifica demais) sensação de vazio, a angustia, a dolidão... Bem, a minha intensão não é pôr-te pior! lol Queria só mostrar como para mim pode ser martirizante estar longe de quem mais gosto. E isto não é nada bom. Estou a pensar, para o ano, ir estudar também para Lisboa e digamos que não é uma cidade que tenho propriamente como vizinha... Enfim. Até lá pode ser que esta minha faceta suavize =/

Acho que escrever aos que nos fazem falta (mesmo que nunca cheguem a ler) é uma boa maneira de nos sentirmos, de certa forma, mais próximos deles. E sempre dá para enganar a saudade, ao mesmo tempo que aliviamos um pouco o que estamos a sentir. Por isso o teu post foi, sem dúvida, uma bela ideia!

Bem, já não falta assim tanto para 4ª =)

Um beijinho *

Anonymous said...

Sabes, não tenho o hábito de comentar este tipo de coisas. Tambem porque não tenho o dom da escrita como tu tens.
Mas só por seres a melhor madrinha, deixo aqui sinal da minha passagem.
Há que passar por estes momentos, lembrando o tudo de bom que passamos com os nossos entes queridos. A distância é dificil de suportar, mas torna-se menos pesada quando sabemos que temos alguem que está á nossa espera, que tambem sente a nossa falta, e que tambem nos ama e lembra momentos partinhados connosco.

Um mega beijo pa ti madrinha****

Brazinha said...

Recordações??? Quem não as tem?? Também sinto alguma nostalgia quando me recordo de momentos da minha infância... porque já ninguém está por perto, estamos todos dispersos e até nos voltarmos a juntar... não sei quando será esse dia... gostei das tuas palavras como gosto sempre!!! Tenho andado um pouco ausente pk agora já tenho a minha casa e esta vida de dona de casa, "mata-me" lol
Jokas e espero que estejas bem

Unknown said...

Emocionei-me... Adoro-te prima!