Sunday, April 06, 2008

"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Paesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã, senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que me relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde relva regular - jardim público ao quase crepúsculo - sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Nao quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melacolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.

*

A vida é para nós o que concebemos ela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, neste campo é império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império, o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossasp róprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

/Isto não vem a propósito de nada./

Atiro com uma a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que (se) me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro - tantos, sem se entenderem, e todos certos.

Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, mal disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica."

Fernando Pessoa



A página aberta durante a noite quando o livro caiu da estante.

1 comment:

Germano said...

Adoro Fernando Pessoa!